Entrevista com Lino Villaventura

Entrevista com Lino Villaventura

Reginaldo Fonseca

Consultor de moda

 

 

 

Reginaldo Fonseca é consultor de moda, escritor e fundador da Cia Paulista de Moda, empresa que atua na Produção e Gestão de Projetos para o Sistema da Moda, produzindo grandes eventos e ações para shopping centers, tecelagens, grupos e marcas.

Um dos mais renomados profissionais em consultoria e direção executiva/artística de eventos de moda em todo o Brasil, Reginaldo completou 30 anos de experiência no mercado fashion mundial, em outubro de 2017.

Reginaldo estreia como colunista para Adriana Chiari Magazine e traz uma entrevista exclusiva com o estilista Lino Villaventura.

 

 

LINO VILLAVENTURA

Lino Villaventuraé um dos representantes mais significativos da moda brasileira e neste ano comemorou 40 anos de carreira.

Presente no São Paulo Fashion Weekdesde a sua primeira edição, em julho de 1996, Lino encanta pela magia e exuberância de seus desfiles.

Um de seus melhores trunfos é a arte de tinturar e transformar tecidos. Instigante, utiliza materiais que fogem do óbvio para criar novas texturas, nervuras e inconfundíveis patchworks. 

As criações de Lino possuem um marcante caráter hand made, cuja equipe é formada por 50profissionais, comandados pelo estilista com maestria. 

Suas peças são encontradas em diversas cidades brasileiras. Além disso, possui lojas próprias em São Paulo e Fortaleza. Fora do país, suas roupas são vendidas na França, Portugal, Estados Unidos, Espanha, Rússia, Arábia Saudita e Dubai, nos Emirados Árabes.

 

 

Você está entre os melhores estilistas brasileiros. Conte-nos um pouco de sua trajetória e de seu sucesso.

Tudo começou de uma maneira muito informal, em 1973, em Fortaleza. Não foi uma escolha, e sim uma situação. Porque quando eu namorava a Inez (sua companheira e sócia até hoje), fiz um colete para dar de presente a ela e foi um sucesso. A partir daí, as pessoas me incentivaram a fazer roupas e comecei. Nunca fiz curso, nem tive mãe que costurava, nem contato direto com costureiras. 

E os anos 70 foram uma época em que a roupa não era somente uma roupa. Era uma forma de expressão, de contestar, de quebrar paradigmas, como deve ser sempre. E acho que isso foi muito emblemático no meu trabalho. Primeiro fiz o sob medida, depois um pouco de prêt-à-porter e abri uma loja em Fortaleza. Participei de desfiles no Rio de Janeiro e São Paulo. Foi então que abri um showroom na capital paulista, depois uma loja e começamos a exportar.

Fizemos showroom em Londres e em Paris por sete anos, e por último, em Milão.

 

Como você vê a moda no Brasil e no mundo, neste momento?

Cada lugar tem uma identidade própria, e hoje em dia, com a comunicação imediata, com a internet e as redes sociais, as coisas são dirigidas rapidamente para que as pessoas percebam a maneira de ser de cada região.

Mas percebo que, principalmente no Brasil, a roupa e a moda são massificadas demais. Acredito que se perdeu o requinte. Nas ruas e nos lugares mais populares existe muita vulgaridade, que extrapola o nível do sensual, pois do sensual eu gosto! 

Porém, também acredito que essa banalização é global, pois é resultado de um plano socioeconômico mundial, das crises e problemas políticos que estão acontecendo. Isso se reflete diretamente na maneira de ser de vestir e nos anseios populares.

 

Quando você pensa na moda inglesa... Qual é a importância dela? De que forma ela influencia a moda pelo mundo?

De todos os grandes centros de moda do mundo, como Paris, Milão, Londres e São Paulo, acredito que a moda inglesa sempre foi muito irreverente, criativa e sempre quebrou regras.

A alta-costura e alguns dos profissionais que revolucionaram a moda francesa, como John Galliano, Alexander McQueen e Vivienne Westwood, trouxeram criações diferenciadas.

Sou um grande admirador da Vivienne, que sempre teve um histórico no rock e é uma mulher de muita criatividade, à frente do seu tempo. E entre todos, para mim, o McQueen é o melhor!

Já fiz showroom em Londres e acredito que tudo isso nos incentiva a ser bem criativo na hora de fazer um trabalho.

 

Para mim, a mulher que usa a marca Lino Villaventura é, sem dúvida, sofisticada e exigente. E você, como descreveria a sua cliente? O que ela procura quando compra uma de suas peças?  

A mulher que veste Lino tem personalidade. Ela sabe o que quer, sabe quem ela é e tem uma forma de se expressar por meio da roupa. Ela quer vestir algo original, que revele sua personalidade.

E não há idade certa: engloba desde garotas até senhoras de 90 anos.

Vestir homens e mulheres de todas as faixas etárias me enche de orgulho!

São pessoas que reconhecem um bom trabalho e que têm, além de cultura, uma percepção de algo que é bem feito e o real valor de cada produto.

 

Você já vendeu peças – e vende até hoje – para vários lugares do mundo. Fale um pouco dessa experiência.

No showroom que fiz em Londres, atendi fazendo sob medida, e depois, em Paris, vendemos muito bem, por vários anos.

Quando se trata de exportação, temos um grande problema: o valor de nossos produtos e os impostos que pagamos, porque isso encarece muito o produto. Se a marca não tem um grande reconhecimento internacional, dificulta. Por isso, precisa-se ter um trabalho muito diferenciado.

Foi o que aconteceu quando eu fiz um grande desfile, de quatro dias, em Osaka, no Japão. Lá, estavam presentes os grandes estilistas e importantes marcas europeias. E tivemos um enorme destaque! Foi assim que comecei a exportar para o Japão, durante uns seis anos, e para os Estados Unidos.

Mas as coisas foram complicando até chegar a crise de 2010/2011, e acabamos retraindo um pouco esse projeto.

Os Emirados Árabes e a Rússia sempre foram excelentes clientes. Para a Europa, é um pouco mais difícil. Já vendi para Itália, Espanha e Portugal, mas tem uma sobretaxa de 20% quando o produto não é do mercado europeu. 

 

Depois do advento das faculdades de Moda, surgem profissionais da área a cada dia. O que você diria a esses novos talentos da moda mundial?

Estou lidando com isso, pois faço parte do projeto “Brasil Fashion”, do SenaiCETIQT,ao lado de Alexandre Herchcovitch, Ronaldo Fraga e da Lenny Liemeyer. Juntos, fazemos um trabalho de coaching com os estudantes que saem dos cursos de moda do Senai.

Eles devem saber o que querem, para fazer a diferença e entrar no mercado de uma forma mais competitiva. Para isso, tem que ter originalidade, entrar com algo diferente!

Ao sair da faculdade, o futuro profissional tem que saber que o trabalho de um estilista não é fácil. Se não tiver amor, não gostar e não souber se é aquilo que você almeja para sua vida, será muito difícil. 

Não é esse glamour todo. Se entrar pensando: “Vou fazer sucesso, conhecer celebridades”... não dará certo! Saiba que você vai trabalhar muito, não terá só momentos gloriosos e que vai passar por dificuldades.

Mas se achar que pode enfrentar tudo, porque isso é muito importante para você, vá em frente! Estou há 40 anos nesse trabalho, é um sacerdócio, mas eu adoro. Sinto-me realizado.