Abrir espaço

Abrir espaço

Um dos ensinamentos que a jornada meu trouxe, por meio das duras – porém sempre justas e valiosas – lições que a estrada nos impõe, é sobre a importância de abrir espaço.

Tendemos a preencher todos os espaços presentes em nossas vidas – com qualquer coisa que seja. Nossos armários estão sempre cheios, nossas agendas usualmente ocupadas, e se nos encontramos solteiros estamos na constante procura de uma outra metade. Abarrotamos nossas vidas de certezas. Fazemos planos para nossas férias, planos para a nossa moradia, planos para a nossa carreira profissional. Planejamos cada aspecto de nossa vida. Não abrimos espaço para o incerto. Herdeiros de uma sociedade material e obsessivamente analítica, tememos tudo aquilo que é impreciso. E muitas vezes preferimos um sofrimento que já nos é familiar do que arriscar a felicidade no desconhecido.

Não há nada de errado em fazer planos, eles possuem seu lugar em nossas vidas e o pragmatismo advindo deles nos permite um cotidiano assertivo. A grande questão é quando reduzimos a nossa realidade à realização desses planos. Nossa mente é limitada em demasia para vislumbrar e compreender o grande panorama da infinita e incessante teia da Existência. Tomamos por real somente aquilo que conseguimos captar com nossos limitados sentidos físicos, que são capazes de perceber apenas uma ínfima fração da realidade, e estreitamos nosso viver ainda mais ao caminharmos através daquilo que julgamos conseguir controlar e compreender dessa pequena porção que conseguimos notar por meio de nossos órgãos sensoriais.

Outro grave distúrbio causado pelo excessivo planejar é a frustração quando falhamos em atingir nossas expectativas – que são cada vez mais altas –, de modo que a decepção se torna mais corriqueira que o contentamento. 

Por fim, e não menos importante, é o fato de que, ao vivermos vidas ordinárias, planejamos também coisas ordinárias, alinhadas com nossa autoestima (que costuma ser mais baixa do que alta). Enquanto a Vida é extraordinária! Portanto, para que ela aconteça é preciso abrir espaço!

A Vida ensinou-me isso da pior maneira. Logo após deixar tudo para trás e decidir sair pelo mundo, fui dominado por um enorme vácuo: não havia mais planos nem obrigações. E ainda que o sentimento inicial fosse de liberdade e entrega, as tendências habituais de uma mente viciada logo assumiram o controle e passei a planejar cada aspecto da jornada: os países que iria passar, os lugares que iria visitar, os hotéis nos quais me hospedaria... Em pouco tempo toda a minha viagem estava inteiramente desenhada numa fria planilha de Excel.

Todavia, enquanto esperava meu voo para fora do Brasil no aeroporto de Guarulhos, tive meu tablet roubado – e junto com ele todos os meus planos e itinerários. Ao chegar na África do Sul, como eu não possuía mais o endereço do local onde deveria me hospedar, tive de sair às ruas na procura de um novo hotel. Então, fui assaltado e tive o limite de 3 dos 4 cartões que eu havia trazido comigo estourados. Isso tudo no primeiro dia de viagem! Após isso ainda fui roubado mais cinco vezes.

E graças aos céus eu fui roubado! Graças aos céus eu quebrei meu pé! Graças aos céus eu passei por todo o tipo de adversidades! Do contrário, essa teria sido apenas uma viagem normal – visitaria apenas locais clichês e viveria mais do mesmo. Sem as desventuras impostas pelo caminho, eu jamais iria passar pelo Oriente Médio; sem a falta de dinheiro eu jamais iria morar numa caverna no Sul da Índia, sem os obstáculos eu provavelmente jamais iria parar no Nepal, onde fui atacado por dois rinocerontes selvagens e ainda acabei subindo o Everest B.C. Se todos os meus planos tivessem dado certo, querido leitor, eu nem mesmo teria a oportunidade de estar escrevendo a você.

Sua Santidade o Dalai Lama – e eu tive a oportunidade de fazer um retiro com ele nesta viagem – diz que “às vezes não conseguir o que queremos é uma tremenda sorte”. Quantas vezes aquilo que buscamos é na verdade fonte de profundo sofrimento e aquilo que tememos carrega em si a semente de uma maravilhosa oportunidade? 

Não tenhamos tantas certezas sobre a Vida. Sejamos capazes de permanecer humildes ao imenso mistério sempre presente na jornada. Fisicamente é impossível dois corpos ocuparem o mesmo espaço. Então para que o novo aconteça é preciso abandonar o velho (ainda que este velho esteja no futuro). Einstein diz que “é loucura esperar novos resultados fazendo sempre as mesmas coisas”. Portanto, abramos espaço em nossos armários, em nossos relacionamentos, em nossas agendas e em nossas vidas. 

Confie na Vida. A Vida cuida de você melhor do que você cuida da Vida!

 

André Luiz Baldo, 27 anos, escritor e peregrino.