A Alma que em ti habita. 

A Alma que em ti habita. 

Texto: Jordana Barale

Fotos : Jordana Barale

A cerca de uma semana me sinto como quem tenta enxergar focado, mas é complicado conseguir isso após ter a pupila dilatada para testes oftalmológicos. É complexo falar sobre alma, essência e cosmovisão quando você é o assunto investigado. Por fim, resolvi então “começar bem do comecinho”, risos. Tive a primeira oportunidade de vir para Londres aos 19 anos, mesmo com o passaporte em mãos e minha mãe residindo aqui optei por continuar no Brasil e viver outros sonhos que eram mais urgentes. Durante mais de uma década sufoquei o gemido do meu inconsciente a respeito deste assunto, então de repente, aos 31 eu pisava pela primeira vez no solo Londrino. Com a refém da minha retina, capturei a gentileza desta cidade que insistia em visitar meu inconsciente sempre que tinha a oportunidade. E Londres sabe cortejar alguém, enquanto eu a fotografava ela posava tentando me seduzir, como se isso fosse necessário, eu já estava apaixonada pela cor da sua arte, cultura e história e até a melancolia dos dias cinzas a tornavam para mim, ainda mais fotogênica. Ir embora 4 dias após minha chegada foi como o rompimento de um romance prematuro, foi a constatação de que nenhum lugar do mundo conteria tanto da minha essência pois enquanto eu a fotografava pensando capturar sua alma acontecia o inverso, como disse, Londres é gentil e ao sobrevoar o atlântico senti que seria esperada. De fato, nos encontramos rapidamente em mais algumas oportunidades e cada vez eu me via ainda mais cativa. Em Janeiro de 2015 com o convite do Café Cariño para fazer uma exposição em Goiânia, não tive dúvidas sobre o quê trabalharia; “ A alma que em ti habita” seria o tema que honraria a minha paixão platônica. Selecionei as fotos e escrevi para cada uma como se tais confissões pudessem de alguma forma mudar a realidade. 

Então novamente fui surpreendida, desta vez Londres mostrava a imponência de suas decisões, a votação de 2016 para a saída do Reino Unida da União Europeia foi uma resposta educada a respeito “ da nossa relação”, com isso no meu ápice profissional no Brasil simplesmente cruzei o Atlântico para uma relação real e madura com esta cidade que em meu coração já era lar. 

Agora 1 ano após minha chegada a oitava exposição adentra o meu caminho. A coletiva “ Brazil in Focus” promovida pela Cia Arte Cultura de São Paulo com a parceria da All Visual Arts em Londres, sela a relação entre mim e o solo londrino. Dentre as 2 fotos escolhidas está uma da “ Alma que em ti habita” exposição de 2015. Você pode estar curioso a respeito de como me sinto após este tempo, se ainda continuo enxergando gentileza na dureza do dia-a-dia? Bem, estou vivendo uma nova utopia, a de conhecer cada canto da alma desta cidade que segundo Valnei Nunes, é ela quem te escolhe! 

Texto das imagens: 

FRASES “A ALMA QUE EM TI HABITA” 

Victoria and Albert Museum 

Fitada, a escultura da memória dilata a pupila dos que ainda pulsam por um futuro descondicionado dos porquês de seu passado. Eis o legado dos que guardam a sua alma. 

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Victoria and Albert Museum 

A magnitude não consiste na superfície extraordinária, mas sim na essência que emana das entrelinhas. Que o aroma do conhecimento alcance nossas narinas. 

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St. Martin’s Place 

Majestosa e imponente ela exala a fragilidade dos que cirandam pelo efêmero. (Memorial de Edith Cavell, enfermeira britânica assassinada pelos alemães ao ser julgada e sentenciada ao fuzilamento, após ter ajudado 200 aliados a fugirem da Bélgica invadida pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Ela auxiliava soldados de ambos os lados) 

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Knightsbridge 

Era a musicalidade do descaso que entorpecia os sentidos dos surdos e cegos de alma enquanto seu sopro entoava canções de um coração acolhedor (inspirado em artista de rua). 

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Whitehall 

O toque da afronta e a apatia do estático descaso! 

(Manifestação contra a visita do presidente do Egito) 

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National Portrait Gallery 

Enquanto nossos olhos fitarem o passado como os que lá ficaram, estaremos estagnados diante do paradoxo chamado tempo vivendo um presente efêmero com o legado reduzido a observação platônica de sonhos frustrados. 

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Trafalgar Square 

Entreolhou com a bravura dos seus dias de glória, ponderando acerca de coisas que não convém denunciarmos. 

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St. Paul's Cathedral 

Sendo contida gotejou tons cinzentos no outono acalentador. 

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Trafalgar Square 

Ao experimentar brincar com sua alma, provei do meu punho levantado, meu olhar enquadrado, dividindo com aquela que capta do meu coração tudo o que Londres me contava. 

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London Bridge 

Despretensiosa, ciranda pelo tempo, confundindo-nos quanto ao que é atemporal. 

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Waterloo 

Do âmago ressoa o tilintar que entoa os passos de seus andarilhos. Eis, ladeando, o olho que Londres vê. 

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Leicester Square 

Tremula a orgulhosa independência, enquanto desbrava um futuro iluminado por saberem quem são os seus. 

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The Shard ( mesma foto da exposição em Chelsea agora) 

A honra em não se esquivar de tudo o que se é torna o esplendor ainda mais belo, afinal não há centro sem margem nem luz sem sombra. As mazelas humanizam esta cidade que toca sua alma quando você ousa tocar a dela. 

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Notting Hill 

Com a sábia serenidade de uma inquestionável experiência, ela revela-se com doses de conta gotas a meros mortais que, como eu, não a subestimam. 

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Green Park 

Fica sempre a saudosa expectativa de provar mais desta cidade por quem serei sempre enamorada.

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