O FASCINANTE SISTEMA AUDITIVO

O FASCINANTE SISTEMA AUDITIVO

Nossas 3 orelhas - Parte 2

 

Renee Rassasse

Fonoaudióloga 

 

 

Dando continuidade ao primeiro artigo, em que dei uma breve explicação sobre o sistema auditivo, vimos um pouco sobre a orelha externa.  Também mencionei as causas mais comuns de perdas auditivas permanentes e temporárias quando a orelha externa é afetada.  

 

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Nesta edição estarei focando na orelha média, que é uma cavidade que conecta a orelha externa com a interna.  Também conhecida como cavidade timpânica, ela é composta pelo antro mastoideo, os ossículos martelo, bigorna e estribo e a tuba auditiva (antes conhecida como Trompa de Eustáquio). Esse conjunto forma uma câmara pneumática onde a pressão interna deve ser igual à pressão atmosférica. 

 

Todos nós sabemos que som é uma forma de energia causada por vibrações, então, ao trespassar a membrana timpânica, os ossículos vibram conduzindo o som para a orelha interna. À tuba auditiva, que conecta a cavidade timpânica com a rinofaringe, cabe a função de  equilibrar as pressões e ventilar o espaço pneumático. 

 

Mas o que pode dar errado nesse espaço que venha a causar uma perda auditiva? 

 

Primeiramente devo dizer que praticamente todos os problemas na orelha média são tratáveis, seja por operações, medicamentos ou exercícios específicos. Em alguns casos, uma perda auditiva permanente pode acontecer, sim, mas geralmente de grau leve ou moderado.

 

A causa mais comum de perda auditiva temporária é, de longe, a otite secretora, o Glue Ear, e falarei com mais detalhes sobre essa condição que afeta quase 8 de cada 10 crianças com menos de 5 anos de idade no mundo todo. 

 

Outras causas seriam o barotrauma, quando ocorre despressurização entre a cavidade timpânica e a pressão atmosférica, comum quando andamos de avião, subimos montanhas altas ou mergulhamos em grandes profundidades; otosclerose, quando os ossículos se calcificam;  trauma nos ossículos em decorrência de acidentes; infecções crônicas ou agudas, conhecidas como otite média; tumores benignos e colesteatoma, que são doenças mais graves e podem ser congênitos ou adquiridos.

 

O que é Glue Ear - Otite Média Secretora?

 

Glue Ear.

Glue Ear.

Uma das doenças mais comuns em crianças no mundo todo, ocorre quando catarro ou secreção ficam depositados dentro da orelha média. Raramente se torna infecciosa, logo, sintomas como dor, febre e indisposição geral não necessariamente ocorrem. Na maioria dos casos, dura pouco tempo e afeta a audição levemente. Curiosamente, meninos são mais propensos do que meninas e a incidência é maior em crianças que moram em casa onde se fuma, nas que são amamentadas por mamadeiras, nas que têm facilidade de ter resfriados, tosses, alergias, intolerância alimentar e outros problemas otorrinolaringológicos (amigdalites, otites, rinites, laringites, faringites ou aumento das adenoides) e nasceram com malformações faciais.

 

Como pode ser uma doença silenciosa, é imprescindível que os pais, cuidadores e professores fiquem atentos às mudanças no comportamento psicossocial da criança, assim como ao rendimento escolar. 

 

Outros sinais de que a audição pode estar comprometida são:

 

-      Falar muito alto ou muito baixo

-      Ficar muito perto da televisão

-      Qualidade da voz se apresentar alterada

-      Não responder quando chamada pelo nome

-      Frustração não conseguir se comunicar

 

 

Como ocorre?

 

Ocorre em decorrência de alterações e mau funcionamento da tuba auditiva. Quando estamos resfriados, gripados ou em crise alérgica, a secreção que não foi eliminada pelo nariz pode migrar para a orelha média. Em crianças a tuba auditiva é mais horizontalizada, logo fica mais fácil o trânsito e alojamento dessa secreção na cavidade da orelha média. Se este preenchimento permanece, a secreção não tem por onde drenar, causando, assim, diminuição na audição.

 

O que fazer para que a tuba auditiva funcione bem?

 

Quando funciona normalmente, ela abre por algumas frações de segundos (aproximadamente 3 ou 4 vezes por minuto), logo, sempre que engolimos algo (saliva, líquidos ou alimentos), bocejamos ou mastigamos esse movimento é feito. Quando há uma disfunção tubária, podem-se usar alguns artifícios para que ela volte a funcionar adequadamente, como mascar chiclete, chupar balas e fazer a famosa manobra de Valsalva, onde tapamos o nariz e a boca e, gentilmente, sopramos o ar em direção às orelhas.

 

Incentivar a criança a tocar instrumentos de sopro, como flauta, saxofone e gaita, também ajuda muito a estimular o bom funcionamento da tuba auditiva, assim como beber bastante água pode ajudar em diluir a secreção. Brincar de encher bexigas e soprar velas também está valendo, desde que seja supervisionado.

Quais são os tratamentos oferecidos?

 

O tratamento da Otite Média Secretora é médico, mas o que será feito dependerá de cada caso. Podem ser indicados antialérgicos, descongestionantes ou sprays nasais, antibióticos ou ainda observar por um pequeno período sem nenhuma medicação. As brincadeiras que mencionei acima também devem ser incluídas durante o tratamento, bem como o uso do Otovent.    

 

Se tratamento por meio de remédios não funcionar, a Otite Média Secretora de aguda passar a ser crônica, e se a criança estiver com perda de audição constantemente, um pequeno furo na membrana timpânica pode ser feito, onde um tubinho de ventilação ou “grommet” é inserido. O fluido é então drenado e assim os sintomas são aliviados.  Algumas vezes as adenoides e amígdalas são removidas, caso o aumento dessas glândulas seja o causador da Otite Média Secretora. Anestesia geral é necessária em crianças, mas em adultos a intervenção pode ser feita no consultório mesmo.

Normalmente a Otite Secretora dura pouco tempo. O fluido na cavidade da orelha média pode se autodrenar e desaparecer completamente, o ar retornar a cavidade e a audição voltar ao normal. Poucos casos de Otite Média Secretora aguda tornam-se crônicos, necessitando a miringotomia e, em raras ocasiões, o uso de aparelho auditivo.

 

O que fazer se suspeitar de uma perda auditiva?

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-      Faça um diário das situações em que a criança não responde bem

-      Converse com os professores na creche ou escola

-      Consulte o GP e peça um encaminhamento para o otorrinolaringologista (observe o NICE guidelines)

-      Procure serviços privados de audiologia