CONTO, NESCAU EM LÜBECK

NESCAU EM LÜBECK

 

            No dia em que meus filhos foram levados eu comprei nescau pois havia acabado. Fui até o mercado, comprei o nescau para eles fazerem com leite ao voltarem da escola. Ficariam meia hora sozinhos, esperando os avós para passarem o final de semana e retornariam no domingo à noite. Cheguei mais cedo, pois havia sido dispensado das duas últimas aulas num dos cursinhos. Achei estranho terem levado alguns edredons e o notebook em que brincavam uma ou uma hora e meia por dia. Mas, manias dos avós, com tantos edredons e computadores em casa, pensei. O importante é que haviam tomado nescau antes de viajarem.

            O sábado foi tranquilo, com alguns compromissos e um tantinho de descanso, bem tantinho mesmo. Resolvi limpar o quarto, mas não do jeito do cotidiano, e sim com muito mais esmero e lixo retirado. Ficou um brinco e tirei fotos. Também coloquei um livro novo na cama de cada um. O dinheiro andava bastante curto e amigos me ajudavam com alimentação, mas nunca deixei de comprar livros para as crianças. Nem chocolate. Ou nescau.

No mercado mesmo encontrei dois livros sobre vampiros muito interessantes. Eles curtiam o tema, adoravam ver a novela “Chica Vampiro”, então foi um ótimo e saboroso presente fora de hora. Aliás, os melhores presentes costumam ser inesperados. As crianças nem viram as fotos, eu sei, pois todas as vezes que viajavam e eu enviava fotos, áudios e vídeos, os avós não mostravam, pois os agarravam com os tentáculos e não permitiam outros afetos.

Por outro lado, ai de mim se as crianças não falassem com eles ao menos duas vezes ao dia pelo celular do mais velho. Eu sempre instruía as crianças para usar o WhatsApp, pois senão dispersavam. Ou apenas mandavam um ou outro emoji e pronto. Lembrava a eles o quanto os avós sentiam saudades e também a mãe, trabalhando em outro estado. Então um pequeno texto, um vídeo, uma dancinha engraçada ou um áudio com risadas acabavam rolando. Era assim.

Às vezes o poder se traveste de afeto. Quando conheci as crianças e fui dar comida para a menina com a colher e a brincadeira de avião, a avó ralhou que naquela casa ninguém brincava de aviãozinho nas refeições. No dia seguinte eu a flagrei dando aviãozinho para a menina e o menino. Um dia fiz nescau para o menino e ela disse que era muito pouco pó e tascou no copo sete colheres de açúcar do achocolatado e pontificou que somente então estava bom. Sempre houve nas crianças mais afeto do que colheres de nescau naquele copo. Bobagem a competição.

            O domingo foi inquieto, de uma inquietude que me assombrava fazia dias. Chovia muito. Relâmpagos e trovões. Pensei que pudesse haver um acidente e a inquietude seria um aviso. Firmei uma vela para Cosme, Damião e Doum. Protegessem meus pequenos, o menino com 10, a menina ia fazer 9 dali a alguns meses. Chuva forte, linda, gosto muito, mas a inquietude... Trovões, crianças que não chegavam. Quem chegou foram áudios da mãe no WhatsApp. Daí minha vida mudou mesmo, fez uma curva, um cotovelo, um buraco, um rasgo no espaço-tempo, à época não entendi bem. Que havia conversado com os pais e achado melhor as crianças morarem com eles. Que não me havia dito nada para não haver confusão. Que as crianças não precisavam passar por privações. Que sabia que eu as amava, mas só amor não bastava. Que a perdoasse por isso. Que eu havia sido um bom pai.

            Mantive a calma (para minha surpresa) e gravei um áudio, em resposta. Que achava aquilo desnecessário. Que se houvesse me falado talvez se surpreendesse com minha resposta colaborativa. Que as coisas de fato não andavam fáceis, mas nunca havia faltado nada para as crianças. Que se os sobrinhos dela estavam passando a arroz e salsicha, os nossos comiam arroz, salsicha, duas vezes por semana lanche fora de casa e muitas outras coisas, incluindo nescau, claro. Que ela notasse que se referia a mim no passado, como se eu não fosse mais pai das crianças. Que eu ficara esperando as crianças e agora compreendia o porquê da agonia no coração

            Respirei fundo e fui ao mercado. Precisava preparar alguns documentos para o trabalho durante a semana, então faria aquilo na madrugada. Nunca fui de trabalhar na madrugada, mas sabia estar sem sono. À entrada do mercado, um pai com a filha no colo. Comprei uma lata de coca e duas de cerveja. Eu era pai. Havia até sido batizado com o vômito do menino, quando moramos num apartamento com mezanino e ele, adoentado, me chamara de cima da escada. Pronto. Aquele dia eu recebera o sacramento paterno.

            Os avós pediram para eu providenciar documentos e pertences que iam buscar. Aproveitei e separei também as coisas da mãe, pois fazia um ano ela já me avisara do desejo de ficar sozinha e resolver questões pessoais. Mas as crianças ficariam comigo, era o acordo. Dois meses depois vendi algumas coisas e paguei um frete, pois os avós davam mil desculpas (sim, eram desculpas, o valor era pequeno e não necessitavam do carro que estava quebrado para acompanhar o frete) para não retirarem os objetos (onde estava a urgência?), a casa era alugada, emprestei a garagem do vizinho para guardar tudo. Quatro meses sem notícias, as crianças em outra cidade. Eu escrevia no Whats do menino, ele visualizava, não respondia, misteriosamente saiu de um grupo do qual gostava muito. Tentei os Whats dos avós, o correio. A menina fez 9 anos e não fui convidado.

            Respirei fundo, mantive a calma, mas fiquei muito triste. Entreguei o imóvel e fui para outro estado. Antes, disse aos avós que os perdoava dia a dia, a cada hora um pouco mais, contudo aquilo era alienação parental e, mais do que crime, crueldade comigo e com as crianças. Eles tinham outra neta cuja convivência havia sido proibida pela família paterna. Não teriam aprendido com a dor? O avô disse para eu seguir em paz e parar de falar besteiras. Bloqueou o Whats dele e o do menino. Poder confundido com afeto. Posse. Mas não era indiferente ser pai biológico ou não. Não. Nunca foi. Numa das tentativas de reaproximação com o pai biológico (o que sempre apoiei, inclusive à mãe no não querer pensão, ora no querer, ora no desistir, pois não era paga), num shopping, o avô, que sempre me chamara de pai, dissera às crianças, referindo-se a mim, na hora da despedida “Segurem na mão do seu... do seu... enfim, segurem na mão.” Deu um sorriso e, com um gesto conformado de cabeça sentenciou “C´est la vie...”. Talvez a dele, não a minha.

            Segundo um koan zen, uma jovem engravidou e seus pais ficaram muito brabos. Com medo, ela não revelou o nome do pai, atribuindo a paternidade a um mestre zen que residia na cidade. Os pais, após o parto, levaram a criança ao mestre e disseram “É sua, tem de criar!” Ele respondeu “É mesmo?”. Meses depois, arrependida, a moça contou a verdade e, contritos, ela, o pai biológico e os avós, foram contritos até o mestre e lhe pediram a criança de volta. Ele a devolveu enquanto todos se desculpavam e apenas disse “É mesmo?”. Uma amiga italiana uma vez me perguntou o que teria acontecido à criança. Respondi que esperava que ela tivesse sido bem criada pela família, amorosamente.

            Assim como nunca soube os possíveis destinos da criança do “É mesmo?”, não tive notícias de meus filhos (sim, continuo a ser pai) por dez anos. Na próxima semana chegarão a Lübeck, a menina para um curso de fotografia, o menino para workshops de jazz.  Ficaremos juntos por algumas semanas. Disseram que me trazem presentes da mãe e dos avós (“É mesmo?”), livros, claro. Fiz um roteiro de passeios não apenas pela cidade, mas por outros pontos da Alemanha. Dentre eles, faço questão, a fábrica da Nescau em Lübeck.

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Ademir Barbosa Júnior (Dermes) é terapeuta holístico e escritor. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é também Doutor Honoris Causa pelo MCNG-IEG (2018) e pela FEBACLA (2019), membro da Academia Independente de Letras e sacerdote umbandista.